Memorial apresentado à professora Tamar Rabelo – Programa (GESTAR II) Gestão da Aprendizagem Escolar
Uma memória engraçada me vem à cabeça quando me lembro das primeiras experiências com a leitura, algo que, até hoje, sempre me veio como um acontecimento sem grande importância. Lembro-me exatamente da primeira palavra que li sem a pressão da professora, sem as expectativas de ter que aprender a ler. Foi uma surpresa para minha mãe, e para mim mais ainda. Aconteceu de forma tão espontânea e natural quanto inesperada. Eu apenas li. Ao contrário do que se pode esperar, tal leitura não aconteceu na sala de aula, nem mesmo na escola. Aconteceu na saída dela, do lado de fora, na rua, onde um pipoqueiro aguardava, estrategicamente nossa saída na hora do almoço.
Minha mãe, como de costume, me aguardava na saída da escola. Era quase um sacramento, que se cumpria diariamente. De mãos dadas, saímos em direção à nossa casa, o pipoqueiro sorria feliz porque sabia que suas vendas estavam garantidas. Hoje, lembrando desse fato, aquele sorriso me parece tão cruel quanto o sorriso dos vilões que eu temia nos desenhos a que assistia naquela época. Pedi a minha mãe que me comprasse um saco de pipoca. Um não foi a resposta. E não importava o quanto eu pedisse, implorasse, dissesse que estava com fome, minha mãe repetia que estava sem dinheiro e que ficaria pra outro dia. O cheiro, que se espalhava por toda rua cruelmente, fazendo a mim e a outros garotos de mães também sem dinheiro - ou talvez tempo – quase entrar em transe com ele. Acho até que foi o efeito do quase transe que possibilitou o que se deu a seguir. Com os olhos marejados, olhei pela última vez para o carrinho de pipoca e uma palavra parecia se aliar ao aroma amanteigado e, juntos, destravaram meu cérebro. De repente eu sabia ler: fiado... mãe, mãe! Ele vende fiado. Vamo lá.
Minha mãe ainda se esquivando soltava um claro que não, garoto! Ninguém vende fiado na rua. Mas eu não desisti: olha mãe, ta lá. Tá escrito. Olha ali: fi-a-do. Minha mãe me olhou sorrindo e perguntou: - Ué, você sabe ler?! Não respondi. Quase esqueci a pipoca. Olhei novamente a placa, li. Olhei a minha volta, li.todas as placas e cartazes, eu li. – Eu sei ler! Eu sei ler! E saí lendo o mundo todo. A volta pra casa deve ter demorado o dobro do tempo. Finalmente eu tinha certeza: aquilo era uma padaria. E assim foi o resto do ano. Lia, lia sem parar. Era instigante finalmente ver um mundo que até então era invisível para mim.
Mas logo veio o outro lado. A leitura obrigatória. Do primeiro livro que menti que li, não lembro nem o título. Era muito chato. Eu me perguntava se realmente a professora gostava daqueles livros. Acho que sim, o problema deveria ser eu. Eu gostava de ler estórias de Cônan, o bárbaro, Batman e outros do tipo. As histórias que as professoras me pediam para ler eram tão chatas as fichas de leitura que acompanhavam os livros. Ah! As velhas fichas de leitura. Elas eram um problema que logo aprendi a resolver. Algumas respostas, eu nem precisava ler as páginas pra saber. Para as outras, havia a ajuda de alguns colegas caridosos. Mataram meu gosto pela leitura e assim eu caminhei por longos séculos de leituras pela metade e de fichas falsificadas. Desisti. Mas não me fazia falta, eu sabia gramática, minha redação era mediana, sendo assim... sem problemas. No ensino médio, decorei as datas e nomes de autores, obras, movimentos literários e... passei no vestibular. Adorava gramática, então... nada mais óbvio que Letras.
Primeiras aulas de teorias da literatura e um problema: eu teria que ler. Como? Eu odiava ler! Era impossível eu ler tudo o que mais uma vez me era imposto. Depois das primeiras notas baixas, resolvi explicar meu problema a um de meus professores. E pra minha decepção a resposta não trazia soluções milagrosas. Eu esperava dicas, algo como leitura dinâmica ou coisa parecida – havia ouvido falar em leitura skimming. Mas o que eu ouvi foi uma pergunta inusitada: - O que você faz em letras então?! Não respondi. Não tinha resposta. Depois de um silêncio constrangedor, o professor quebra o silêncio no que eu acho que seria uma última tentativa. A que filmes você gosta de assistir? Não entendi, mas respondi: - filmes de ação com uma história inteligente. - Procure-me amanhã. Disse o professor. Fiz isso e recebi um volume de o poderoso chefão, que era mais grosso que todas as páginas que eu já tinha lido na vida. Mas aceitei a provocação. Não havia outro jeito. Era isso ou desistir do curso, quem sabe...
Num domingo sem energia e sem sol abri, num esforço sobre-humano, aquelas pesadas páginas, que pouco depois de abertas, após as primeiras viradas exalavam um leve aroma de pipoca amanteigada. Conforme elas iam ficando pra trás, o cheiro ia ficando mais forte, quase podia sentir o gosto, era indescritível. Após alguns poucos dias, o livro acabou. Comi até os caroços que não estouraram. Mais uma vez aquele mundo que meus olhos infantis uma vez vislumbraram estava diante de mim.
Ainda incrédulo com minha façanha devolvi o livro ao professor, agradecido, mas ainda insistindo em como fazer para resolver meu problema. Outro livro, maior ainda, foi o que ele tirou da gaveta para mim. Lembro da sensação que senti ao ver aquele nome tão grave quanto o número de páginas: Olga. Olhei, pensei, levei.
Mais um domingo, dessa vez de sol, e um livro para ler. Resolvi levá-lo à piscina de um clube próximo. Roupas sobre a mesa, chuveiro e um mergulho, o último do dia. Quando saí um pouco da água, resolvi abrir o livro. Logo ao começar a ler, buscava aquele cheiro no interior das paginas, mas ele demorou um pouco mais que quando na presença dos Corleone. Mas veio, veio forte. Tanto que não consegui parar de ler e quando dei por mim já estavam limpando a piscina. Nem mesmo fome eu senti – acho que foi a pipoca.
O terceiro livro que recebi, coincidentemente, foi o livro da leitura obrigatória da prova final. Foi o último que ele me emprestou. Passei pelo primeiro período. Depois disso nada mais me atormentava. Lia, lia muito. Tudo ficara mais simples, era fácil agora estudar, o que, aliás, não exigia muito tempo quanto antes.
Depois de Graciliano, muitos outros me fizeram companhia. Procurei, achei e li os livros da época de criança. Estranho que na época de criança eu não conseguisse ler O Reino Perdido do Beleléu. Depois de adulto ele me parecia realmente feito para minha idade, na época. Depois um desafio da adolescência: Dom Casmurro, uma ferida aberta do segundo ano do ensino médio. Voltei séculos na minha história. Revisitei todas as séries, quase todos os autores para quem menti ter lido seus livros, me desculpei e segui em frente.
Os livros foram uma ajuda imprescindível para passar pelas longas horas de serviço no quartel. Éramos eu, uma arma, a escuridão, uma pequena lanterna, um livro e o risco de ser apanhado no delito e preso – todas as noites em que segurava um fuzil, agradecia àquele professor por me reconciliar com a leitura – como disse o poeta foram “horas longas a passar velozes.”
Na Faculdade, alternava as leituras entre teóricas e artísticas. Dentre tantos que li, me marcou o livro Quando eu Voltar a Ser Criança, do Dr. Korczak, que mudou permanentemente minha relação com as crianças, e me fez perceber o como, de fato, eu era desrespeitado e como frequentemente eu desrespeitava os pequenos. Foi essencial para me tornar um pretenso professor.
Não vou aqui fazer uma lista do que li, mas recomendo todos, até os que eu não gostei. Parece um paradoxo, mas não adiantaria pô-los em listagens. Os livros são únicos para quem os lê. Uma obra particular em cada um. Hoje me pergunto como passei a infância sem eles, sem essas viagens, aventuras, lágrimas e sorrisos. E tento na minha missão evitar que outros tantos cresçam pela metade, conhecendo apenas o pobre mundo real, apenas com as amizades físicas, sem companhias que atendam exatamente ao que eles precisam escutar. Tento ser professor, ou melhor, o pipoqueiro de meus alunos.
RECOMEÇO
Há 15 anos
Um comentário:
Amei a pipoca! Mas o "fi-a-do" foi D+!!!!Rsrsrsrsrs
Amei todo o texto.É impressionante como sempre tem um bom professor em nossas vidas. Aquele que se torna inesquecível até mesmo quando esquecemos o nome dele.
Será que é por isso que também somos professores???
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