domingo, 14 de junho de 2009

Relatório V – 1º encontro para elaboração dos projetos. (4,5 horas)

No dia 11 de junho demos início aos estudos para o planejamento do projeto a ser desenvolvido pelos cursistas. No nosso 5º encontro fizemos um estudo teórico no intuito de aprofundar o conhecimento sobre o tema e sistematizar o processo de produção.
Para isso foi utilizado o texto referencial Trabalhando com projetos (Adaptado do texto Gestão de projetos, presente no livro Gestão da Escola, do Programa de Melhoria do Desempenho da Rede Municipal de Ensino de São Paulo; iniciativa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em convênio com a Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, 1999.) encontrado no endereço eletrônico http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2002/cp/texto1.htm . A partir do texto em questões foi criada uma apresentação de slides orientando sobre questões importantes como:
O que é um projeto?
Quais são as características básicas de um projeto?
O que diferencia um projeto de outras atividades profissionais?
Quais são as providências essenciais a tomar durante a criação, planejamento e gestão de um projeto?
Apesar de ter sido uma explanação bastante teórica, o encontro envolveu os cursistas, evidenciando interesse por parte deles em implementar novas técnicas e metodologias nas práticas pedagógicas da escola. Durante a presentação várias questões foram levantadas a respeito do tema a ser desenvolvido no projeto, o que enriqueceu bastante o encontro.

Relatório IV – 1ª oficina Planejada ( 04 horas)

No dia 4 de junho, demos inicio a nossa primeira oficina planejada, tendo como objeto de estudo as unidades 9 e 10, devendo ocorrer a eliminação de alguma dúvida remanescente dos estudos e a socialização dos relatórios da aplicação do Avançando na prática escolhido pelo professor.
As primeiras oficinas mostraram ter sido bastante úteis, já que restaram poucas duvidas em relação à teoria dos assuntos abordados, tendo demonstrado terem cumprido os objetivos propostos. Em relação ao sistema de estudos, porém, evidenciou-se a necessidade de mais orientações de como se daria a execução do estudo individual e a realização do avançando na prática. Poucos cursistas trouxeram relatório com as informações necessárias a avaliação. Outros escolheram as atividades do estudo individual para aplicar em suas salas. Optei por dar início aos relatos das experiências e deixar para o fim do encontro as orientações em relação a metodologia que deveriam empregar para seu estudo, aplicação das atividades e avaliação.
Como previsto, pudemos diminuir o tempo sugerido para dirimição das dúvidas e incorporá-lo à socialização das experiências da Lição de Casa. Quando mesmo quem não apresentou o relatório escrito participou contando suas como se deu a realização das atividades escolhidas.
Nesse momento percebeu-se motivação e grandes expectativas dos cursistas em relação ao curso, pois viram que o conhecimento teórico adquirido era, de fato, aplicável em suas práticas pedagógicas, segundo os relatos de vários cursistas. Dois professores contaram inclusive que escolheram turmas com problemas disciplinares e de concentração para a realização do AP (Avançando na Prática), obtendo envolvimento, participação e rendimento muito significativos das turmas na realização das atividades.
A maior parte dos cursistas escolheu os APs da seções 1 e 2 da unidade 9. Sendo também escolhido o AP da seção 3 da mesma seção, porém apenas por duas professoras. As maiores dificuldades expostas pelos cursistas foram de questões estruturais da escola, atingindo quase a totalidade dos relatos a ausência máquinas copiadoras. O que motivou a adaptação mais freqüente na realização das atividades: a substituição dos textos propostos na TP3 por textos dos livros didáticos.
Apesar de não explicitado por parte nos professores, notou-se certa dificuldade, quando não ausência, no trabalho com análise lingüística. Não mencionei o fato, mas decidi planejar atividades para os próximos encontros visando a esclarecer e inserir nas práticas dos professores trabalhos com análise linguística, já que o estudo sistematizado da questão acontecerá apenas na TP2.
Como resultados positivos os professores em sua totalidade – não houve relatos negativos – ressaltaram o envolvimento dos alunos, e a ampliação dos debates em sala. Muitos professores evidenciaram também a compreensão dos textos como objetivo alcançado de maneira mais eficaz.
Um dos relatos chamou bastante a atenção por sua complexidade e riqueza. Uma das professoras apresentou uma sequência didática diferente do AP, todavia muito completa e rica. Tal sequência se aplicava ao gênero fábula e estava prevista no planejamento da professora e trabalhava competências ligadas a leitura, compreensão e produção de textos e análise linguística, embora ainda de maneira tímida, com atividades bem elaboradas e sistêmicas. Posteriormente, caso a professora concorde, tal sequência será publicada neste blog.
No terceiro memento, dividimos a sala em grupos para a elaboração de atividades, conforme proposto na TP3. Nesse trabalho coletivo, foi perceptível uma maior preocupação com atividades que envolvessem atividades que promovessem a análise e reflexão sobre a língua, o que deve ser mais aproveitado no intuito de inserir esse eixo temático nas atividades docentes.
No momento destinado a avaliação da oficina, aproveitei para frisar a importância da entrega dos relatórios com as informações solicitadas e de que as atividades desenvolvidas sejam elaboradas a partir dos APs, o que facilitará a socialização e a avaliação.
A turma de modo geral avaliou a oficina como produtiva. Um dos pontos positivos mais referenciados foi a oportunidade de socializar experiências não se limitando ao puro e simples relato, mas sendo refletido e comentado pelos cursistas. A divisão do tempo para as atividades apareceu como ponto negativo, justificando-se a afirmação pela necessidade de mais tempo para reflexão sobre as socializações, segundo alguns cursistas.

sábado, 13 de junho de 2009

Relatório III – 1ª oficina livre ( 04 horas)

Depois de duas semanas em que estive em formação continuada – uma semana na formação do GESTAR e outra na de Crônicas na Sala de Aula – realizamos o 3º encontro no dia 28 de maio. Optei por uma oficina livre para aprofundar o os conhecimentos teóricos e começar a utilizá-los na prática como intuito de dar auxiliar na execução da lição de casa.
Começamos a oficina com a exibição do vídeo O Sabor e o Saber para iniciarmos a discussão sobre o papel do professor e o ensino significativo. Funcionou como uma maneira de sair da inércia, já que estávamos a duas semanas sem formação. Em seguida revisamos o estudado até aquele momento e esclarecemos mais algumas dúvidas sobre o projeto.
Respondidas as questões iniciais dividimos a sala em seis grupos, um para cada seção das unidades 9 e 10, para duas atividades com a finalidade de fazermos um trabalho mais focado no desenvolvimento de atividades e a aplicação das lições de casa. Como primeira atividade os grupos fizeram um estudo das seções e do avançando na prática, onde deveriam pensar em alterações – se fosse o caso – para as séries finais do ensino fundamental.
Na socialização das os grupos demonstraram ter compreendido bem as relações de gênero e a aplicação dos conhecimentos na atividade docente, porém há uma tendência a focar as atividades na interpretação dos textos de uma maneira ainda meio assistemática e esquecendo-se de outros aspectos como a análise linguística.
Na segunda atividade, os cursistas deveriam propor novas atividades partindo do estudado na TP, onde também ficou evidenciado a dificuldade em trabalhar com análise linguística, o que deverá ser priorizado nos próximos encontros.

Relatório II – 2ª Oficina introdutória ( 04 horas)

A segunda oficina se realizou no dia 7 de maio, quando começamos por dirimir dúvidas relacionadas a estruturação do programa remanescentes do 1º encontro, horas de estudo, oficinas planejadas e a elaboração do projeto. Mais pessoas participaram desse encontro, dizendo só terem tomado conhecimento através dos colegas que participaram na semana anterior.
Depois dos esclarecimentos, iniciamos um estudo mais sistemático e teórico em cima de gêneros e tipologia textual. Para isso, além da TP3, usamos uma apresentação de slides baseadas no texto completo de Luiz Antonio Marcuschi Gêneros textuais: definição e funcionalidade.
Através das perguntas e comentários surgidos, foi possível constatar a heterogeneidade da turma. Alguns cursistas já tinham o conhecimento e trabalho um tanto avançado na perspectiva dos gêneros, embora os referencial teórico fosse ainda deficitário, outros ainda não estavam inseridos nas discussões sobre os gêneros. O que ratificou a necessidade da explanação teórica.
Após a apresentação e discussões passamos a trabalhar com o material do GESTAR. Estudamos a TP3 – unidades 9 e 10. As maiores dificuldades ficaram em torno da diferenciação entre gêneros e tipologia. Alguns professores tiveram um pouco de dificuldades em assimilar o conceito de seqüência tipológica, o que aparentemente foi solucionado ainda durante a oficina.
Finalizando a oficina, a sala foi dividida em pequenos grupos para a resolução dos exercícios do fragmento do texto de Marcuschi presente no fim da unidade 9 e socialização das discussões e respostas obtidas, o que propiciou um debate bastante rico, dinâmico e produtivo sobre a utilização dos conhecimentos tanto na aula como no planejamento de novas estratégias.

Relatório I - 1ª oficina introdutória ( 04 horas)

O primeiro encontro – primeira oficina introdutória – de nosso grupo realizou-se no dia 30 de abril, na Escola Rodolfo Aureliano, no centro de Jaboatão, das oito às doze horas da manhã.
Os cursistas chegaram ainda um pouco receosos em relação ao programa. Talvez pela desorganização por parte da administração, fata de informações e demora para o início das atividades. Mas começou.
Abrimos nossas atividades com minha apresentação e dos cursistas. Logo depois, exibi os slides apresentando o programa e explicando sua estrutura. O que gerou inúmeros comentários e questionamentos, já que boa parte dos cursistas não sabia de fato do que se tratava o programa – alguns pensavam que se tratava de uma formação realizada num único encontro. Os principais empecilhos colocados pelos cursistas giravam em torno de quem os substituiriam em sala nos dias dos encontros, se teriam redução de carga horária e outras do tipo. O que se configurou num pequeno problema, pois se direcionou a apresentação para o lado burocrático – realmente necessário – e esqueceu-se do programa em si, tanto que decidi retomar as apresentações na segunda oficina introdutória.
Depois da apresentação geral do programa, apresentei o texto vôo da renovação( a renovação da águia) através de slides com efeitos visuais e sonoros, entregando também uma cópia a cada professor. Utilizamos esse texto para iniciar, através da reflexão, a necessidade da formação continuada e atualização constantes dos docentes. A discussão foi bastante proveitosa pois, a partir dela, os cursistas exporam suas ansiedades, e expectativas em relação ao gestar, e mais, suas dificuldades no trabalho com os “novos” objetivos do ensino da língua materna.
Terminados os debates, procedemos a entrega e a apresentação dos kits de livros do programa – o que gerou entusiasmo por parte da maioria quando perceberam que o discurso inicial poderia se tornar material.

Memorial - Idas e vindas

Memorial apresentado à professora Tamar Rabelo – Programa (GESTAR II) Gestão da Aprendizagem Escolar


Neste memorial, resumirei as minhas já resumidas – até agora – vidas acadêmica e profissional. Rememorarei os fatos marcantes e relevantes que me guiaram até aqui e que apontam o caminho a minha frente.
Tudo começa na faculdade
Costumo dizer que entrei na educação pela janela e fui convidado a sentar. Justifico: entrei na faculdade ainda muito novo – 16 anos de idade. Apesar de sempre ter sido considerado um bom aluno, não me considerava pronto para encarar um nível de estudo e de desenvolvimento humano tão elevado. Mas, incentivado por meus pais, no ano de 1996, me inscrevi no vestibular de letras das Faculdades Integradas de Vitória de Santo Antão – FAINTVISA. Não tinha muita certeza ainda do que eu queria fazer, mas como para mim seria uma experiência e adorava as “aulas de Língua Portuguesa” – as aspas se explicam pelo fato de que, como a maioria dos professores em atuação hoje, minha experiência com a língua na escola resumiu-se basicamente à Gramática.
Acho que por isso pensei que iria estudar apenas gramática. Para minha surpresa, foi apenas lá que entrei de fato com o estudo sistemático da Língua. A Língua em todas suas instâncias, dessa forma o curso me conquistou e decidi continuar. Ver a Língua a minha frente e descobrir que a Gramática era apenas uma de suas facetas era instigante.
Não posso dizer que fui um aluno brilhante, mas estava acima da média. Passei do primeiro ao 7º período sem dificuldades, porém sem grandes avanços acadêmicos também. Não participei de muitos congressos ou outros eventos desse tipo e, no 5º período, mais ou menos, já me desgostara um pouco do curso, não o achava mais tão instigante como no início. Julgava-o inferior a seu objetivo: a formação de professores. Tive que “correr por fora” como se diz no jargão popular. A literatura técnico-teórica foi, para mim, uma tábua de salvação.
Da teoria à prática
Até o 3º período, a graduação corria sem muitos fatos marcantes, gostava de cursar Letras, mas ainda não pensava, de fato, em exercer a profissão de professor. Foi aí que um convite mudou totalmente minhas perspectivas. Um colega de sala me convidou a assumir um contrato de estágio na Escola Estadual Arthur Mendonça, no município de Moreno, minha primeira experiência profissional regulamentada. No fim do primeiro semestre já estava muito inclinado a seguir profissionalmente no magistério. Novamente eu havia sido cativado. Era de uma grandeza indescritível saber que faria parte do desenvolvimento de crianças e adolescentes – alguns da minha idade, ou até mais velhos. E ver como fui bem aceito pelos colegas de trabalho – refiro-me a professores e alunos – me chamava na direção da sala de aula. No fim do ano eu sabia, queria ser professor.
Segui no estágio até o ano 2000, quando questões pecuniárias, que fugiam a minha vontade me levaram a fazer um concurso da Aeronáutica, onde permaneci por seis anos. Seis longos anos que me fizeram largar a sala de aula e adiar a conclusão do 8º período. Uma decisão difícil mas que teve que ser tomada.
Durante esse tempo, o mais perto que cheguei do magistério foi auxiliar no estudo de alguns colegas e, eventualmente lecionar em alguns cursinhos improvisados preparatórios para concursos militares. Era triste estar na frente de um quadro e não me sentir professor. Não sentia a atração que sentia quando estava no ensino regular. Não estava ensinando Língua Portuguesa, estava ajudando a responder questões. Embora quando estava nas salas da rede pública, minhas aulas fossem muito mais aulas de gramática que de língua – afinal era essa a referência que tinha no ensino médio – já desenvolvia alguns trabalhos envolvendo leitura e escrita. Nas aulas preparatórias, não sei bem como definir, mas me sentia tudo, menos professor. Ansiava pelo retorno ao verdadeiro magistério.
O retorno à faculdade
No 2º semestre de 2005, consegui voltar ao curso. Faculdade reformada, gente nova e, fora isso, mais nada novo. Estava – e estou – carente de vida acadêmica. E o pior era saber que o 8º período não me ajudaria nisso.
Se três anos e meio não mereceram tantas linhas assim neste memorial, seis meses não hão de merecer. Tudo que posso dizer é que não tive surpresas. Aulas, provas, diploma. Concluí um curso superior sem achar que estava pronto para atuar no que deveria.
De volta à sala de aula
Havia usado os dias de serviço de guarda para ler, ler muito. E continuava lendo. Tinha a necessidade, a obrigação de suprir deficiências de formação. Ia me atualizando e vendo que o que antes eu julgava ser minha aula de Língua Portuguesa, nada mais era do que o que eu tinha visto na educação básica: gramática. Isso me atormentava muito. Procurava sanar o problema antes de entrar novamente na sala de aula. Mas era impossível.
Ao fim do mesmo ano que voltei à faculdade, abriram inscrições de um concurso para professores da Rede Estadual de Pernambuco. Fiz e obtive aprovação. Descrever a sensação que tive quando recebi o resultado é totalmente desnecessário. Basta dizer que esperei ansiosamente por isso durante 6 anos.
No primeiro dia de aula estava mais nervoso que na primeira que ministrei aos 17 anos. Olhava para os alunos ali a minha frente e, não sei bem como, dei meu recado. Acho não seria exagero dizer que estava em casa. Sentia-me confortável mais uma vez no trabalho.
Estava tudo certo, menos uma coisa: precisava sair mais ainda do tradicionalismo que não trouxe muitos frutos à educação dos nossos jovens. Ensaiava algumas análises lingüísticas, muitos exercícios de interpretação de texto, mas nada ainda muito sistematizado. Até percebia alguns resultados, mas ainda muito modestos para o que eu queria: o desenvolvimento do gosto e das competências pela leitura e escrita dos alunos.
Participei de algumas capacitações oferecidas pela Secretaria de Educação, o que me ajudaram muito a desenvolver estratégias para aproximar cada vez mais minhas práticas do ensino verdadeiro da nossa língua materna, mas ainda não como eu queria. Dois anos e meio depois do meu regresso as salas, já conseguia desenvolver algumas atividades e projetos com os alunos que traziam resultados mais palpáveis. Mas foi ao ingressar no GESTAR II que meu processo de desenvolvimento se ampliou muito, em conjunto com o dos alunos. Finalmente vi a possibilidade de sistematização que procurava.
O programa, além de ampliar conteúdos, surgiu como um aglutinador de minhas práticas, me dando parâmetros para elencar e sistematizar o que eu já vinha desenvolvendo tudo que eu já vinha desenvolvendo, e autonomia para planejar, preparar e aplicar novos meios de acordo com as necessidades das turmas. Fora o progresso profissional que percebi nos resultados de meus alunos, o GESTAR II acendeu o desejo de pesquisa acadêmica que hoje não sei bem se um dia eu tive.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

memorial de leitura: pipocas.

Memorial apresentado à professora Tamar Rabelo – Programa (GESTAR II) Gestão da Aprendizagem Escolar

Uma memória engraçada me vem à cabeça quando me lembro das primeiras experiências com a leitura, algo que, até hoje, sempre me veio como um acontecimento sem grande importância. Lembro-me exatamente da primeira palavra que li sem a pressão da professora, sem as expectativas de ter que aprender a ler. Foi uma surpresa para minha mãe, e para mim mais ainda. Aconteceu de forma tão espontânea e natural quanto inesperada. Eu apenas li. Ao contrário do que se pode esperar, tal leitura não aconteceu na sala de aula, nem mesmo na escola. Aconteceu na saída dela, do lado de fora, na rua, onde um pipoqueiro aguardava, estrategicamente nossa saída na hora do almoço.
Minha mãe, como de costume, me aguardava na saída da escola. Era quase um sacramento, que se cumpria diariamente. De mãos dadas, saímos em direção à nossa casa, o pipoqueiro sorria feliz porque sabia que suas vendas estavam garantidas. Hoje, lembrando desse fato, aquele sorriso me parece tão cruel quanto o sorriso dos vilões que eu temia nos desenhos a que assistia naquela época. Pedi a minha mãe que me comprasse um saco de pipoca. Um não foi a resposta. E não importava o quanto eu pedisse, implorasse, dissesse que estava com fome, minha mãe repetia que estava sem dinheiro e que ficaria pra outro dia. O cheiro, que se espalhava por toda rua cruelmente, fazendo a mim e a outros garotos de mães também sem dinheiro - ou talvez tempo – quase entrar em transe com ele. Acho até que foi o efeito do quase transe que possibilitou o que se deu a seguir. Com os olhos marejados, olhei pela última vez para o carrinho de pipoca e uma palavra parecia se aliar ao aroma amanteigado e, juntos, destravaram meu cérebro. De repente eu sabia ler: fiado... mãe, mãe! Ele vende fiado. Vamo lá.
Minha mãe ainda se esquivando soltava um claro que não, garoto! Ninguém vende fiado na rua. Mas eu não desisti: olha mãe, ta lá. Tá escrito. Olha ali: fi-a-do. Minha mãe me olhou sorrindo e perguntou: - Ué, você sabe ler?! Não respondi. Quase esqueci a pipoca. Olhei novamente a placa, li. Olhei a minha volta, li.todas as placas e cartazes, eu li. – Eu sei ler! Eu sei ler! E saí lendo o mundo todo. A volta pra casa deve ter demorado o dobro do tempo. Finalmente eu tinha certeza: aquilo era uma padaria. E assim foi o resto do ano. Lia, lia sem parar. Era instigante finalmente ver um mundo que até então era invisível para mim.
Mas logo veio o outro lado. A leitura obrigatória. Do primeiro livro que menti que li, não lembro nem o título. Era muito chato. Eu me perguntava se realmente a professora gostava daqueles livros. Acho que sim, o problema deveria ser eu. Eu gostava de ler estórias de Cônan, o bárbaro, Batman e outros do tipo. As histórias que as professoras me pediam para ler eram tão chatas as fichas de leitura que acompanhavam os livros. Ah! As velhas fichas de leitura. Elas eram um problema que logo aprendi a resolver. Algumas respostas, eu nem precisava ler as páginas pra saber. Para as outras, havia a ajuda de alguns colegas caridosos. Mataram meu gosto pela leitura e assim eu caminhei por longos séculos de leituras pela metade e de fichas falsificadas. Desisti. Mas não me fazia falta, eu sabia gramática, minha redação era mediana, sendo assim... sem problemas. No ensino médio, decorei as datas e nomes de autores, obras, movimentos literários e... passei no vestibular. Adorava gramática, então... nada mais óbvio que Letras.
Primeiras aulas de teorias da literatura e um problema: eu teria que ler. Como? Eu odiava ler! Era impossível eu ler tudo o que mais uma vez me era imposto. Depois das primeiras notas baixas, resolvi explicar meu problema a um de meus professores. E pra minha decepção a resposta não trazia soluções milagrosas. Eu esperava dicas, algo como leitura dinâmica ou coisa parecida – havia ouvido falar em leitura skimming. Mas o que eu ouvi foi uma pergunta inusitada: - O que você faz em letras então?! Não respondi. Não tinha resposta. Depois de um silêncio constrangedor, o professor quebra o silêncio no que eu acho que seria uma última tentativa. A que filmes você gosta de assistir? Não entendi, mas respondi: - filmes de ação com uma história inteligente. - Procure-me amanhã. Disse o professor. Fiz isso e recebi um volume de o poderoso chefão, que era mais grosso que todas as páginas que eu já tinha lido na vida. Mas aceitei a provocação. Não havia outro jeito. Era isso ou desistir do curso, quem sabe...
Num domingo sem energia e sem sol abri, num esforço sobre-humano, aquelas pesadas páginas, que pouco depois de abertas, após as primeiras viradas exalavam um leve aroma de pipoca amanteigada. Conforme elas iam ficando pra trás, o cheiro ia ficando mais forte, quase podia sentir o gosto, era indescritível. Após alguns poucos dias, o livro acabou. Comi até os caroços que não estouraram. Mais uma vez aquele mundo que meus olhos infantis uma vez vislumbraram estava diante de mim.
Ainda incrédulo com minha façanha devolvi o livro ao professor, agradecido, mas ainda insistindo em como fazer para resolver meu problema. Outro livro, maior ainda, foi o que ele tirou da gaveta para mim. Lembro da sensação que senti ao ver aquele nome tão grave quanto o número de páginas: Olga. Olhei, pensei, levei.
Mais um domingo, dessa vez de sol, e um livro para ler. Resolvi levá-lo à piscina de um clube próximo. Roupas sobre a mesa, chuveiro e um mergulho, o último do dia. Quando saí um pouco da água, resolvi abrir o livro. Logo ao começar a ler, buscava aquele cheiro no interior das paginas, mas ele demorou um pouco mais que quando na presença dos Corleone. Mas veio, veio forte. Tanto que não consegui parar de ler e quando dei por mim já estavam limpando a piscina. Nem mesmo fome eu senti – acho que foi a pipoca.
O terceiro livro que recebi, coincidentemente, foi o livro da leitura obrigatória da prova final. Foi o último que ele me emprestou. Passei pelo primeiro período. Depois disso nada mais me atormentava. Lia, lia muito. Tudo ficara mais simples, era fácil agora estudar, o que, aliás, não exigia muito tempo quanto antes.
Depois de Graciliano, muitos outros me fizeram companhia. Procurei, achei e li os livros da época de criança. Estranho que na época de criança eu não conseguisse ler O Reino Perdido do Beleléu. Depois de adulto ele me parecia realmente feito para minha idade, na época. Depois um desafio da adolescência: Dom Casmurro, uma ferida aberta do segundo ano do ensino médio. Voltei séculos na minha história. Revisitei todas as séries, quase todos os autores para quem menti ter lido seus livros, me desculpei e segui em frente.
Os livros foram uma ajuda imprescindível para passar pelas longas horas de serviço no quartel. Éramos eu, uma arma, a escuridão, uma pequena lanterna, um livro e o risco de ser apanhado no delito e preso – todas as noites em que segurava um fuzil, agradecia àquele professor por me reconciliar com a leitura – como disse o poeta foram “horas longas a passar velozes.”
Na Faculdade, alternava as leituras entre teóricas e artísticas. Dentre tantos que li, me marcou o livro Quando eu Voltar a Ser Criança, do Dr. Korczak, que mudou permanentemente minha relação com as crianças, e me fez perceber o como, de fato, eu era desrespeitado e como frequentemente eu desrespeitava os pequenos. Foi essencial para me tornar um pretenso professor.
Não vou aqui fazer uma lista do que li, mas recomendo todos, até os que eu não gostei. Parece um paradoxo, mas não adiantaria pô-los em listagens. Os livros são únicos para quem os lê. Uma obra particular em cada um. Hoje me pergunto como passei a infância sem eles, sem essas viagens, aventuras, lágrimas e sorrisos. E tento na minha missão evitar que outros tantos cresçam pela metade, conhecendo apenas o pobre mundo real, apenas com as amizades físicas, sem companhias que atendam exatamente ao que eles precisam escutar. Tento ser professor, ou melhor, o pipoqueiro de meus alunos.